Dia ruim. Abafado. Indeciso. Na volta pra casa a esperança era o wifi que podia ter voltado. Não tinha. Por mais que o Spotify desse a entender o contrário o tablet ainda estava mudo. Ok. Não tem tempo mesmo. Ok, ação: banho rápido, juntar as coisas (não é difícil nesse cubículo), sair correndo pro sol opressivo do dia quente demais pra pegar o ônibus. Argh. Caminhada curta, mas com estímulos demais para minha mente já cansada do trabalho com crianças durante toda a manhã. Chego na parada, o ônibus demora… não vem. Some. O fone atolado no ouvido e o cabelo molhado, corajosamente ensopado de leave-in, derretendo sobre o meu pescoço exposto. O ônibus vem. Entro. Já atrasada demais, quente. Não há lugares. Vou em pé até atrás do shopping, o que não é exatamente longe da faculdade, mas sempre exige uma caminhada de certo pique. Nada de valor nutricional ingerido até então, é incrível como pizza só presta fresca: por mim o que eu não comesse no mesmo dia eu jogava fora, FORA, FORA! Aí eu saberia que era rica, mas agora eu preciso de noventa e cinco centavos pra um bolo, eu queria poder comprar um bolo, mas tenho que me apressar pra criar a dorzinha dos tornozelos que gente de pé grande tem quando anda rápido, rápido, rápido se eu chegar na avenida da universidade no exato momento em que o semáforo fechar eu ganho. Perco. Espero o sinal abrir, o sinal abre porque eu esperei e tudo na vida funciona assim como dois e dois são cinco, cálculo de humanas, eu passo pelo bosque correndo sobre a dor dos tornozelos; as pessoas são jovens e fumam, que coisa feia um jovem fumar eu penso, o baseado no bolso de trás da mochilinha rosa que não tem absolutamente nada a ver comigo mas eu precisava de uma mochila então o boy me emprestou, cozinha muito bem o boy: eu queria poder comer, eu passo direto pela cantina quando na verdade o que eu queria mesmo era poder comer, que horas será que são quando eu entro no bloco didático: CINCO PRAS DUAS, AYRTON SENNA… DO BRASIL!!!!! Tema triunfante, vou subindo as escadas nas pontas dos pés e pensando no que estariam pensando os que vinham atrás de mim e desfrutavam de visão privilegiada das minhas panturrilhas, será que alguém aqui nessa faculdade olha pra mim, tema triunfante entra em certo declínio porque lembro da adolescência no ensino médio, quando eu já tinha a coluna torta mas ainda não tinha cabelo bonito nem peitos, você imagine só. Mas agora menos mal, deu certo. Cheguei cedo. Cheguei. Quase sorrindo. Consegui. Não me distraí em nenhum momento. Não desisti, não cedi. Não fugi da dor. Hoje a ansiedade não me venceu. Não fugi da raia no trabalho. Estudei alemão. Li. Vivi cada momento da minha vida em tempo real. Estou cansada de um jeito bom – antes exausta do que ansiosa. Deu certo. Consegui… sento. Aí dentro da bolsa, dentro do tablet, automaticamente, porque na sala dezessete do bloco didático chega o sinal do wifi da coordenação, cuja senha é ESTUDANTES tudo maiúsculo, aí o Spotify começa a tocar I Won’t Last a Day Without You, dos Carpenters.

Eu sorrio.

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