8 de maio de 2018

Uma castanha, duas três. Ela tinha acabado de voltar da prova de legislação de trânsito, passou. Poxa, que legal. Não dou parabéns. Mas sorrio, então não fica rude. Quatro, cinco, o nescau. Ela acha que vai terminar com o alemão. Eu pergunto e aí como ficou essa história, sorrindo de interesse sincero. Ela gosta de interesse. E está ficando impaciente. Quer que a história se resolva logo pra poder planejar as férias em Milão. Vai começar o verão na Europa e ela quer ver o verão na Europa. Ai, que massa, eu sorrio, o cheiro do nescau no leite gelado é uma delícia de maravilhoso. Olha isso. Não resisto, tomo um copinho, e ela não gosta dessa situação pendente porque fica pensando muito. Não gosta de pensar. Não é uma pessoa pensativa, pensar demais deixa a gente triste e eu concordo bebendo o nescau sem oferecer. Cinco castanhas agora, ela tem certeza de que ele deve estar curtindo todas por lá enquanto ela está aqui presa. Quando aprender a dirigir ela quer alugar um carro e ir pra Canoa Quebrada, ver os boys na praia. É bom o salgadinho da castanha com o doce do nescau no leite gelado, eu penso nos boys. Na praia. Ela é bonita, tem cabelos longos e sobrancelhas da moda, está na academia e eu vi a embalagem de whey na parte dela do armário enquanto guardava o miojo na minha parte debaixo, quase toda vazia a não ser por uns pacotes de chá de hibisco que eu desisti de tomar porque estava com medo de que tivesse a ver com umas coisas bizarras que vinham acontecendo com meu corpo, e um pacote de colorau que nem era meu. Ela continua, está cansada dessa história toda, quer ir pra Europa solteira e lindíssima, e eu sorrio. A Europa. Suspiro, mas ela não percebe por causa da segunda castanha. Croc, croc, salgadinho. Ela quer uma resposta dele até depois de amanhã, quarta-feira, dia da apresentação dos níveis dois e três na Semana da Mamãe lá no trabalho. Mamãe, eu não sei o que dizer. Quero que você seja feliz, e depois eles cantam a musiquinha do Sunshine que faz três meses que eu canto todo santo dia em uma sala diferente e até agora vem dando certo, eles estão aprendendo. You are my Sunshine, my only Sunshine, ninguém aguenta mais essa musiquinha, tia, dizem meus colegas de trabalho, todos eles, todo mundo se chama de “tio” e “tia” na creche. Eu fico meio tonta de pensar que por causa daqueles meninos eu tô considerando largar tudo, a vida incerta na Europa em qualquer lugar com qualquer cara que eu ainda não conheço; por causa daqueles meninos eu tô considerando largar tudo, tudo que eu não tenho que eu nunca vou ter porque tenho mesmo tendência a ter um bucho, ela disse um dia quando me encontrou na cozinha depois da academia, e quatro castanhas; e aí tu acha que vocês terminam mesmo? Eu pergunto e ela tem certeza e já tá de saco cheio, aquele safado. Certeza que trai ela o tempo todo, o que tu acha que ele fica fazendo lá? Complicado, eu digo sorrindo divertida. Não custa nada dar atenção, ela gosta. Não é complicado. Ela quer é ir embora, a vida passa rápido. Ela gosta de ter opções. Aí eu também colaboro um pouco e conto uma história sobre uma mulher que foi se prostituir na Europa prometendo voltar com dinheiro pra ajudar o marido alemão que ficou aqui no Brasil cuidando da filha dela, e nunca mais voltou. Mandou buscar a filha e ele, que aceitou casar pra que ela pudesse obter a cidadania europeia, que se fodesse. Agora ele está comigo e eu também fico me estrangulando ao pensar que posso acabar aqui, presa que nem ela, presa aqui abrindo mão de tudo que eu não tenho e talvez nunca chegue a ter mesmo porque não sou que nem ela e os cabelos longos, pretos e bem cuidados dela, ela é bem bonita. Ela não se importa muito com a história e só sorri enquanto volta a falar de uma grande casa que há na fronteira entre a Bélgica e a Holanda, com cassino com mulher com tudo, aonde só vão os milionários e se pode ganhar mil euros por dia sem fazer praticamente nada porque tudo o que eles querem é ir a festas caras com mulheres bonitas, aí eles pagam só pela companhia. Cinco castanhas, será que eu sou uma boa companhia? As crianças da creche pelo menos parecem gostar muito de mim e eu as amo, todas elas, umas menos que outras, sim; não fui contratada pra ser madre teresa. Mas amo todas. Se qualquer uma das que eu gosto menos chegasse e chutasse uma bola pra mim, pedisse please pra eu fazer alguma coisa, eu ia. Eu só quero que eles me amem também, apesar de serem ricos e bonitos e terem tudo que eu não tenho, tudo de que estou abrindo mão por eles. Eu amo aqueles meninos tanto tanto. Será que ela ama o alemão, ou mesmo o italiano? Acho que não, não é complicado. Ela quer é ir ganhar dinheiro e curtir o verão da Europa em Milão em Bruxelas onde ela quiser, e tá errada? Ela está cansada de se sentir presa. Eu termino de mexer o nescau, coloco na garrafa térmica. Amanhã não quero ter que acordar cedo pra fazer nada e preciso me alimentar, semana passada eu quase tive um colapso, sem comer direito, morrendo. Dez, doze horas na ativa todo dia, sem comer direito. Não dá. Ela não vai acordar cedo amanhã, ela não quer pensar muito. Eu engulo a última castanha, ela pergunta se pode apagar a luz e eu vou dormir, seis castanhas de jantar é absurdo mas eu tô tentando perder peso, ela disse mesmo que eu tenho tendência a um buchinho. Ela é bonita. Mas independente de qualquer coisa amanhã seis e meia o Antônio Bezerra-Papicu passa na Heráclito Graça e eu não posso chegar atrasada no trabalho, não posso, é a Semana da Mamãe e eu pelo menos tenho uma inveja que sorri divertida.


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